Home Saúde A febre amarela, o comportamento humano e os macacos – O que leva o ser humano ao assassinato em larga escala?

A febre amarela, o comportamento humano e os macacos – O que leva o ser humano ao assassinato em larga escala?

por Redação EstraBlog

A febre amarela é uma doença grave causada por vírus e altamente infecciosa. Essa doença aparece constantemente na mídia nacional e vem sendo discutida por diversos estudiosos e universidades. Esta ampla divulgação é resultado, principalmente, do Brasil estar passando por uma séria epidemia de febre amarela desde o final de 2016.

febre amarela

O pânico causado por esta doença é devido, em especial, a quantidade alarmante de mortes causadas pela mesma. Ressalta-se que no período de um ano – de janeiro de 2017 à janeiro de 2018 – quase 100 pessoas com febre amarela faleceram apenas na cidade de São Paulo. Esse número assustador refere-se apenas aos casos confirmados. O número total de mortes em São Paulo no mesmo período considerando os casos de suspeita da doença aumenta para pouco mais de 300, ou seja, é 3 vezes mais alto.

Neste artigo você ficará por dentro dos sintomas, prevenção e modos de transmissão da febre amarela. Porém, mais que isso, esta escrita tem como objetivo colocar em pauta o comportamento humano que vem sendo perpetuado devido a este perigo eminente – principalmente no que diz respeito ao tratamento dispensado aos nossos companheiros de planeta, os macacos.

Sintomas da febre amarela

De acordo com especialistas, é comum que os infectados não apresentem nenhum sintoma – o que dificulta o processo de confirmação da doença antes de desfechos possivelmente fatais.

Porém, quando apresentados, os sintomas da febre amarela são bastante fracos e surgem repentinamente. Uma forma de tentar detectar a doença vem sendo a partir da duração de cada sintoma. De modo geral, os sintomas da febre amarela duram cerca de 3 dias, chegando na marca máxima de 5. Ou seja, seus sintomas não chegam a uma semana.

Os principais sintomas da febre amarela são:febre amarela

  • Febre alta.
  • Calafrios.
  • Dor de cabeça.
  • Dor muscular.
  • Náuseas.
  • Vômitos.

A modalidade mais grave da febre amarela é bastante rara e surge após um breve período de aparente bem-estar – período que dura de 1 à 2 dias. Aqueles contaminados por este tipo mais sério de febre amarela costumam apresentar:

  • Insuficiência hepática.
  • Insuficiência renal.
  • Icterícia (olhos e pele amarelados).
  • Manifestações hemorrágicas.
  • Cansaço intenso.

 

Tratamento e cura da febre amarela

O tratamento da febre amarela é sintomático, ou seja, os médicos prescrevem medicamentos para atenuação dos sintomas, e não da doença.

Quando necessário, o paciente recebe transfusão de sangue ou de plaquetas. Analgésicos são usados para a dor no corpo e antitérmicos para a febre. Nos casos mais raros, onde há insuficiência renal, a hemodiálise pode se fazer necessária. Antivirais não são eficientes e devem ser evitados durante o tratamento da febre amarela.

Medicamentos como a Aspirina são extremamente desaconselhados durante o tratamento da doença e devem ser altamente evitados, isso porque tais remédios podem aumentar o risco de hemorragias devido a sua atividade antiagregante plaquetar.

A cura para a febre amarela costuma vir de forma natural entre os casos de pacientes que seguiram o tratamento adequado e as orientações médicas. De modo geral, após o tratamento os pacientes infectados se recuperam bem.

Estudiosos da saúde salientam que pacientes recuperados adquirem imunidade permanente contra a febre amarela, ou seja, estes pacientes não sofrerão mais com a doença.

 

Como evitar – Prevenção da febre amarela

A única forma de transmissão da febre amarela é através da picada do mosquito Aedes aegypti, mesmo transmissor da dengue. Dessa forma, a prevenção da febre amarela mais eficiente é evitando a disseminação do mosquito.

As precauções tomadas para evitar a proliferação do Aedes aegypti auxiliam na prevenção tanto da febre amarela quanto da dengue.

Os principais cuidados que devem ser tomados são:

  • Evitar acúmulo de água parada em recipientes destampados – evita que a fêmea deposite seus ovos.
  • Aplicar inseticida através do “fumacê” para eliminação do mosquito já adulto.
  • Vacinação contra a febre amarela.
  • Utilização de repelentes, mosquiteiros e roupas que cubram todo o corpo.

Transmissão da febre amarela

febre amarelaA infecção da febre amarela ocorre quando alguém que nunca contraiu a doença ou tomou a vacina é picado por um mosquito infectado.

Ao contrair a doença, a pessoa torna-se fonte de infecção para o mosquito. Mas o que isso significa? Isso quer dizer que o sujeito passa a conter a doença em seu sangue e, com isso, qualquer Aedes aegypti livre da doença que o picar passará a portar o vírus da febre amarela. Com isso, este mosquito passa a transmitir a doença para todos que forem picados a partir desse momento.

Além do ser humano, outros animais vertebrados podem sofrer com a febre amarela. Assim como ocorre com as pessoas, os macacos podem conter em sua circulação sanguínea quantidade do vírus suficiente para transformar um “mosquito normal” em um mosquito transmissor.

 

O macaco não tem culpa

febre amarelaOs macacos não transmitem a febre amarela para os seres humanos, assim como uma pessoa infectada não transmite para outra. A única forma de você adquirir a doença é sendo picado por um Aedes aegypti contaminado.

O Ministério da Saúde ressalta que os macacos são ferramentas preciosas na identificação das regiões onde a circulação do vírus ocorre com maior densidade. Com dados dos macacos coletados pelo Ministério, o governo distribui estrategicamente as vacinas no território nacional.

Basicamente, além do macaco não apresentar qualquer risco ao ser humano, ele ainda nos ajuda a combater a doença. Assim sendo, aqui abre-se a pergunta: O que estamos fazendo com os macacos?

 

Comportamento humano

Logo no início do século XX Freud já se debruçava sobre o estudo do comportamento humano. Mais de um século depois e o ser humano continua sendo um mistério para estudiosos de todo o mundo.

Influenciado por Nietzsche, Deleuze e Marx, Michel Foucault é considerado por muitos o filósofo mais importante do século passado. Assim como Adorno, filósofo mais importante do campo da educação no mundo, Foucault compreende que a simples existência em nossa história de verdadeiras catástrofes como a Primeira e Segunda Guerra Mundial, os campos de concentração, os gulags, as violências ocorridas nos manicômios e etc são suficientes para demonstrar os extremos ao qual o ser humano pode chegar.

Pai assassina esposa e filhos e depois tira a própria vida.

Esposa traída esquarteja marido e dá o corpo para cachorro comer.

Pai mantinha filhas em cárcere por mais de 3 anos. As abusava sexualmente. Chegou a realizar caseiramente o processo de aborto em filha mais nova, de apenas 14 anos.

Moradores de rua continuam sendo assassinados a sangue frio. Em entrevista recente, prefeito afirma que “morador de rua não é gente” e está no seu direito de “limpar a sua cidade dessas sujeiras ambulantes”.

Estes são apenas 4 exemplos da violência constante da tão conhecida pós modernidade. Destaca-se que os quatro exemplos tratam-se de manchetes reais tiradas de jornais consagrados de grande circulação. As manchetes foram notícia entre os meses de agosto e dezembro de 2017.

Breve análise realizada nos comentários dessas notícias demonstrou uma verdade inescapável:
  • febre amarelaBoa parte dos leitores solicita com veemência pena de morte, decapitação, estupro e demais violências como “solução” para o problema. Ou seja, boa parte dos leitores acredita que mais violência solucionará o problema de violência social. Deixando a ironia de lado (afinal de contas, coerência pra quê?), é importante destacar que existe um motivo pelo qual fomos subjetivados dessa forma. Existe uma razão que nos faz apostarmos as fichas na violência
  • Uma parcela importante dos leitores chamam os sujeitos das notícias de “monstros”, ou então, relatam que o ocorrido é “desumano”. Em seu estudo sobre as atrocidades ocorridas em hospícios, Foucault fez importante reflexão sobre essa necessidade de nos afastar de qualquer indício de violência explícita, como se estivéssemos aquém disso, como se não fizesse parte da nossa natureza. Assim, recorremos a títulos como “monstros” ou “desumano”, numa vã tentativa de caricaturar esses personagens que, obviamente, não podem ser seres humanos, assim como eu. Afinal de contas, admitir que tais atrocidades são absolutamente cabíveis ao ser humano é admitir que eu e você também seríamos capazes de as cometer em alguma instância.

Adorno, Foucault e Freud possuem divergências gritantes em suas formas de compreender o comportamento humano. Todavia, há um ponto comum em suas análises. Há algo de primitivo em todos nós, algo que buscamos por esconder e mesmo esquecer. Mais que apenas primitivo, essa dimensão humana é primária.

“Socialmente aceitável”

Antes da civilidade, das regras e dos acordos sociais existe uma dimensão humana que nos faz sermos, em essência, humanos. Mais estudos do que seriam necessários já demonstraram os extremos a que chegamos quando nos vemos em perigo real. Freud pode entender que é nosso inconsciente, mais precisamente nosso superego que modela a flexibilidade a que chegaremos e em qual momento deixaremos as regras sociais de lado e abriremos espaço para os instintos primários. Foucault pode compreender que a mesma análise ocorre externamente, frente ao processo subjetivo social. O filósofo compreende que é no processo de subjetivação no estrato social que aprendemos sobre as circunstâncias capazes de nos forçar a abrir mão dos comportamentos “socialmente aceitáveis”.

Independente de teorias, o fato é que existe um momento em que nos vemos livres das amarras sociais. Momento este que nos vemos com a possibilidade de extravasarmos as correntes que nos seguram e apresentarmos os instintos mais primitivos. De modo geral, são nessas circunstâncias que cometemos atos posteriormente chamados de “desumanos” pelo restante da população.

E a febre amarela?

febre amarela

Mas, o que isso tem a ver com a febre amarela?

Não é novidade que a epidemia de febre amarela no Brasil causou – e ainda causa – pânico e terror em boa parte da população, em especial aos residentes de regiões com maior mortalidade devido à doença.

Notícias de pessoas caçando e assassinando macacos numa vã tentativa de se livrar da doença ainda são comuns. Principalmente em cidades afastadas e de pequeno porte.

Utilizando-se de conceitos concebidos por pensadores importantes do último século, em especial Foucault e Freud, é possível realizar análises bastante aguçadas sobre o comportamento humano. Inclusive em situações de desespero.

Sem nos atermos muito nas teorias e reflexões mais complexas de cada pensador. É possível afirmar com certa margem de certeza que o ato propagado pelo ser humano nesse caso é mais que uma simples remodelagem da luta pela sobrevivência.

A febre amarela e a quantidade de mortes que ela vem apresentando juntamente com o medo, ainda que equivocado, dos macacos terem sua parcela de culpa nesse cenário foi suficiente para causar um deslocamento na civilidade e nos hábitos socialmente aceitáveis de parcela da população.

“Instintos humanos”

Mais que uma tentativa de manter a si mesmo e aos seus iguais em segurança, a violência contra os indefesos macacos mostra-se como uma possibilidade de abrir vazão para a primitividade e para os instintos mais cruéis do ser humano aparecem de forma supostamente aceitável – afinal, é com o objetivo da sobrevivência, não é mesmo?

Vale nos recordarmos aqui das aulas de história. Tanto Hitler quanto Mussolini chegaram ao poder por decisão do povo. Ambos souberam ler e tirar proveito do desejo mais obscuro da população a qual governaram.

A Alemanha passava por um período econômico absolutamente delicado. Hitler soube fazer as promessas certas no momento certo.

A Itália passava por um dos períodos mais conturbados de sua história, o que deixava marcas claras na baixa autoestima da população. Mussolini fez sua campanha demonstrando que a Itália tinha forças para sair de tal situação.

Mas… Precisamos ir tão longe?febre amarela

Prefeito de São Paulo ganha nas urnas prometendo “limpar” a cidade.

Mas… limpar do que? E de que jeito? Essas são as verdadeiras perguntas. Hitler, Mussolini e tantas outras figuras emblemáticas souberam o que dizer e, talvez principalmente, o que não dizer – ao menos até o momento certo.

Se, ainda que por um período bem demarcado de tempo, realizar as mais diversas atrocidades com outros seres humanos por motivos financeiros, políticos e sociais tornou-se aceitável, o que esperar da execução de animais em prol do extermínio de um perigo mortal?

A epidemia da febre amarela tornou-se o cenário ideal para a população afrouxar as amarras sociais. Deixar transbordar parte da tensão primitiva tão bem enclausurada.

Vale lembrarmos que apesar da ampla divulgação acerca da inocência dos macacos na transmissão da febre amarela e da diminuição de manchetes sobre o tema, o número de assassinatos aos nossos companheiros mamíferos continua sendo alarmante. O que você acha que mantém os números tão altos? Por que os macacos continuam sendo executados tão desnecessariamente?

Que tal deixar um comentário com a sua opinião e compartilhar esta breve reflexão para levantarmos este questionamento juntos?

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