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A participação de Manuela D’Ávila no programa Roda Viva

por Redação EstraBlog

A participação de Manuela D’Ávila no programa Roda Viva

No dia 25 de junho, a pré-candidata à presidência da república, Manuela D’Ávila (PCdoB) esteve no programa Roda Viva da TV Cultura para uma entrevista. Entretanto a entrevista foi marcada por inúmeras interrupções, levantando questionamentos sobre a prática de interrupção em espaços de fala para uma mulher.

Da mesma forma, a condução da entrevista foi duramente criticada devido o tom hostil das perguntas apresentadas e pela insistência em determinados temas, que expôs as tentativas de desestabilizar a entrevistada.

Entenda porque a entrevista gerou tanta polêmica, como foram conduzidas as entrevistas anteriores com alguns dos outros pré-candidatos e saiba, ainda, o que é manterrupting, conceito amplamente discutido após a entrevista polêmica. Boa leitura!

Roda viva

O programa Roda Viva

O programa Roda Viva, além de ser o mais antigo programa de entrevistas da televisão brasileira, tem um formato diferente dos tradicionais programas de entrevistas: o entrevistado é colocado no centro dos entrevistadores, não há entrevistadores fixos no programa, mas os entrevistadores são convidados conforme seus campos de atuação e a relação das suas áreas com o entrevistado.

Atualmente o programa é apresentado pelo jornalista Ricardo Lessa.

A polêmica de Manuela no Roda Viva

Manuela D’Ávila, pré-candidata à presidência da república pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foi ao programa Roda Viva, da TV Cultura, para uma entrevista no dia 25 de junho.

O objetivo da entrevista era que Manuela apresentasse ao público seus projetos e propostas como candidata ao cargo mais importante do país. No entanto, o que era para ser um debate sobre os planos de Manuela como presidente, tornou-se uma controversa entrevista, marcada pela escolha dos entrevistadores e por interrupções à fala da pré-candidata, além de uma série de provocações suscitadas pelos entrevistadores com intuito de tentar desestabilizar e induzir as respostas da pré-candidata.

Compôs a mesa de entrevistadores do programa, no dia 25 de junho, as jornalistas:

  • Vera Magalhães, do jornal O Estado de São Paulo, e
  • Letícia Casado, da Folha,

Os jornalistas convidados foram:

  • João Gabriel de Lima, da revista Exame,
  • Joel Pinheiro da Fonseca, colunista da Folha e Bacharel em Filosofia,
  • Frederico D’Ávila, diretor da Sociedade Rural Brasileira.

Representante do pré-candidato Jair Bolsonaro na mesa de entrevistadores

A polêmica quanto à bancada de entrevistadores selecionada para edição na qual Manuela D’Ávila foi convidada levantou discussão, principalmente, pela presença do Diretor da Sociedade Rural Brasileira, e também colaborador do pré-candidato Jair Bolsonaro, Frederico D’Ávila. O entrevistador foi responsável por uma das provocações realizadas à Manuela, quando afirmou que “não existe cultura do estupro”.

A presença de um colaborador do pré-candidato Jair Bolsonaro como entrevistador no Roda Viva já havia ocorrido na edição que convidou o pré-candidato Guilherme Boulos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

 

Na edição esteve presente Fabio Wajngarten, advogado e empresário, cuja empresa ofereceu-se para ajudar Bolsonaro a montar a equipe de pré-campanha.

 

As interrupções

Admite-se aos entrevistadores, de qualquer programa ou meio jornalístico, que ocupem um lugar de fala que suscite algum desconforto e que toquem em temas mais delicados. Colocando questões diversas aos entrevistados, porém, espera-se, do bom jornalismo, que seja capaz de contestar ou mesmo divergir sem inviabilizar a oportunidade dos entrevistados de manifestarem-se e de concluírem seus raciocínios.

Foi, exatamente o oposto o que se viu no dia 25 de junho, no programa Roda Viva, e o que repercutiu nas redes sociais, levantando discussões e críticas ao programa.

Nos 80 minutos do programa, a pré-candidata Manuela D’Ávila, segundo levantamento do jornal Folha de São Paulo, foi interrompida 40 vezes, uma média de 1 interrupção a cada 2 minutos de fala. Outras fontes afirmam que Manuela teve mais de 60 interrupções.

O que chamou atenção dos espectadores, e do público nas redes sociais, foi o alto número de interrupções em comparação com os outros pré-candidatos entrevistados pelo programa Roda Viva: Guilherme Boulos do PSOL foi interrompido 9 vezes, Ciro Gomes, do Partido Democrático Trabalhista (PDT), teve 8 interrupções e a pré-candidata Marina Silva, do partido Rede Sustentabilidade, 3 vezes.

Manterrupting – quando uma mulher não consegue concluir sua fala

Manterrupting é um termo inglês, derivado da união das palavras man (homem) e interrupting (interrupção), para designar a prática na qual homens interrompem a fala de mulheres e as impedem de concluírem suas exposições.

A primeira vez que o termo apareceu foi em um artigo escrito por Sheryl Kara Sandberg, Chefe Operacional (COO) do Facebook, e por Adam Grant, psicólogo e professor da Universidade da Pensilvânia. No artigo os autores mencionavam um estudo da Universidade de Yale, que expôs o número significativamente menor com que senadoras norte-americanas se pronunciavam em comparação com os senadores.

Ainda que, o formato proposto pelo programa Roda Viva crie condições propícias para que ocorram interrupções, o episódio ocorrido com Manuela chamou atenção, pois foi considerado anômalo quando comparado com os outros pré-candidatos entrevistados.

A entrevistada foi impedida de concluir sua fala diversas vezes e, além disso, insistentemente questionada, mesmo após responder as perguntas, para que desse uma resposta diferente da que foi dada. Procedimento que expôs as tentativas de alguns dos entrevistadores de desestabilizar e induzir a entrevistada.

Para além das interrupções

Manuela D’Ávila não foi só interrompida, durante a condução da entrevista observou-se hostilidade, ironia e tentativas de desqualificar as respostas da entrevistada. Por parte dos entrevistadores convidados, mas também por parte do apresentador do programa, Ricardo Lessa.

Cultura do estupro não existe

Frederico D’Ávila protagonizou um dos principais confrontos durante o programa.

Ao ser indagada, pelo entrevistador, se era a favor da castração química de estupradores, defendida por Jair Bolsonaro, Manuela iniciou sua resposta falando sobre a cultura do estupro e da relação do problema com a educação. Frederico D´Ávila interrompeu a entrevistada, incorporando no assunto um questionamento, descontextualizado, sobre o nazismo e o Exército Vermelho e, ainda, afirmou que “não existe cultura do estupro”.

Neste momento Manuela protestou queixando-se que era impedida de concluir um raciocínio.

Manterrupting não aconteceu

Manuela também protestou ao ser interrompida por Joel Pinheiro da Fonseca e por Vera Magalhães. Esta última responsável por um dos comentários machistas emitidos após a repercussão da entrevista.

Ao comparar a entrevista de Manuela com a dos outros pré-candidatos, a jornalista afirmou que todos se queixaram de ser interrompidos e que, no caso de Ciro Gomes, a entrevista virou um debate, mas que quando se trata de uma mulher – no caso Manuela – a interrupção se transforma em manterrupting.

A jornalista estava tentando defender que não houve prática de manterrupting durante a fala de Manuela, mas, apenas, as interrupções comuns em uma entrevista.

Opinião é opinião, e todas devem ser respeitadas. Entretanto, contra fatos há poucos argumentos possíveis. A pré-candidata Manuela D´Ávila foi interrompida mais de 600% mais do que o segundo pré-candidato mais interrompido pelo mesmo programa. Será que o tratamento prestado a ela foi o mesmo, de fato?

Obstinação e tentativa de induzir as respostas

Ricardo Lessa, o apresentador do Roda Viva, também se atrapalhou ao conduzir a entrevista. Ao questionar a entrevistada sobre o regime comunista e obter como resposta que o modelo comunista não corresponde ao que Manuela e o seu partido, PC do B, gostariam para o país, insistiu obstinadamente, por mais três vezes no tema, tentando obter, importunamente, uma resposta diferente de Manuela.

O que disseram os jornalistas quanto à repercussão da entrevista

Ricardo Lessa defendeu-se afirmando que não houve qualquer tipo de preconceito e defendendo que é normal um debate tomar contornos acalorados, mas que isso não teve relação com gênero. Afirmou também que a entrevistada não deixou o programa sentindo-se vítima e que não se queixou disso.

Vera Magalhães afirmou em rede social que não ocorreram atitudes machistas e que interrupções são próprias de um debate, assim como divergências, e que nada disso tem gênero.

Frederico D’Ávila defendeu-se dizendo que não houve machismo, e que suas interrupções tinham como objetivo permitir que Manuela expusesse e explicasse melhor seus posicionamentos sobre temas indefensáveis, segundo ele.

Joel Pinheiro da Fonseca postou um vídeo em suas redes sociais, no qual negou que ele e os outros convidados tenham tido atitudes machistas.

Todos os jornalistas negaram veementemente qualquer atitude machista ou preconceituosa para com a entrevistada ao longo do Roda Viva. Entretanto, nenhum deles teve aptidão para explicar os reais motivos da diferença gritante no tratamento dado à Manuela D’Ávila, principalmente depois da apresentação objetiva da quantidade de interrupções e dos tons zombeteiros presentes nesse programa, quando comparados ao restante das entrevistas.

Considerações finais

Nas redes sociais o que se viu foi uma indignação quanto à forma como a pré-candidata foi tratada pelos entrevistadores.

Muitas mulheres e vozes do movimento feminista afirmaram que o que Manuela vivenciou, ao vivo, e que os telespectadores assistiram, é o que vivenciam todas as mulheres ao disputarem espaços de fala. Uma das manifestações do machismo.

Independentemente de quantas interrupções ocorreram, 40 ou mais de 60, o que se observou é que a bancada selecionada pelo programa agiu de maneira hostil e intolerante com a convidada, impedindo a exposição dos projetos e propostas.

E diferentemente do que manifestou Lessa, após o programa, Manuela demonstrou sim seu desconforto com as interrupções ao longo do programa:

  • “Gostaria de retomar a palavra, enquanto entrevistada, se tu me permitires”,
  • “Se você me deixar concluir o raciocínio.”,
  • “Vocês gostam de falar mais do que eu”,
  • “Posso retomar a fala, por gentileza?”

Mas além de interrompida, a entrevistada também não foi escutada. Outra realidade vivida pela maioria das mulheres, ao não serem escutadas também são silenciadas.

E para você, como foi a entrevista de Manuela? Achas que a pré-candidata foi vítima do machismo?

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