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Machismo nosso de cada dia: A sociedade patriarcal e a dívida não paga à população feminina

por Redação EstraBlog

O mês de março é marcado em todo o território nacional como o “mês da mulher”. Este período do ano é repleto de homenagens aparentemente elogiosas, poesias e mensagens de auto-ajuda ou reflexão e números assustadores de pesquisas envolvendo o público feminino.

Nos últimos anos, este mês tem sido utilizado como um momento de conscientização e divulgação de campanhas de proteção à mulher e de incentivo aos cuidados com a saúde e com a segurança feminina.

A Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) são duas aliadas particularmente fortes quando o assunto é a divulgação das problemáticas que envolvem o universo de saúde feminino e em campanhas de proteção e cuidados à saúde.

Os números assustam

Diversos dados publicados pela ONU na última década salientam sobre os riscos aos quais as mulheres vêm se submetendo, em especial como resultado de um cotidiano assustadoramente rígido e cruel. Algumas das pesquisas apresentadas pela ONU demonstram que o público feminino é mais propenso ao desenvolvimento de doenças mentais associadas ao emocional, como a depressão, ansiedade e transtornos alimentares. A OMS destaca, ainda, que o número de casos de mulheres com depressão pós parto e transtorno disfórico pré menstrual têm aumentado significativamente. Para os desavisados, estes últimos números são comparados por período e não por sexo, uma vez que são dois diagnósticos exclusivos do sexo feminino.

O principal objetivo da comparação por período é verificar se determinada doença tem se mantido estável, tem caído ou tem aumentado.

mulherEste artigo colocará em questão o dia da mulher e o universo feminino. Levando em consideração o contexto sócio-histórico-cultural ao qual as mulheres ocidentais pós modernas estão inseridas. Aperta o cinto e boa leitura!

 

8 de março: o dia da mulher. Será?

O dia da mulher, comemorado mundialmente em 8 de março desde o século passado, é um momento simbólico de celebração de todas as conquistas sociais, econômicas e políticas das mulheres ao redor do mundo.

Apesar de sua história ser mais antiga, em 1977 a ONU adotou esta data oficialmente. Motivo pelo qual o dia passou a ser incluído no calendário de boa parte dos países ao redor de todo o planeta. Em especial no ocidente.

Anterior a fixação da data, a luta das mulheres por mais dignidade ultrapassa as fronteiras históricas de que temos notícia enquanto civilização. Estudiosas de todo o mundo ressaltam a associação entre a luta por direitos das mulheres e a sua inclusão em atividades de trabalho para além das paredes de casa. Isso porque a busca de direitos ganhou força após a inserção das mulheres nas indústrias. Principalmente devido à baixíssima qualidade nas condições de trabalho.

Uma luta sem fim

No final do século XIX milhares de mulheres, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, iniciaram com a luta por melhores condições de vida e trabalho, de acordo com dados históricos de que temos notícia. Jornadas de trabalho com cerca de 17 horas, discriminação de gênero nos ambientes de trabalho e condições absurdamente insalubres e sexualmente perigosas fazem parte das razões que mobilizaram mulheres ao redor das fábricas de boa parte do ocidente.

mulherApenas no século seguinte, durante a Primeira Guerra Mundial (1917), a luta das mulheres em prol de alguns direitos básicos tomou maior força e legitimidade. Foi no século XX que as russas ganharam espaço na busca por condições minimamente decentes de vida e trabalho.

Em 8 de março de 1917 milhares de mulheres russas, cerca de 90 mil para sermos mais precisos, realizaram a maior manifestação de que temos notícia. Até hoje o evento é conhecido mundialmente como “Pão e Paz”. Mais de 100 anos depois e o dia da mulher ainda é inserido no calendário de diversos países em março devido à este evento que mobilizou uma verdadeira multidão. Vale destacar que, como nenhuma batalha é fácil, levou mais de 4 anos após o evento para a data ser oficializada e, ainda assim, não recebeu o crédito merecido.

Após a Guerra e a Revolução Industrial, as mulheres passaram a fazer parte do conhecido “chão de fábrica” das indústrias. A insalubridade e a discriminação mantiveram os protestos frequentes. Diversas historiadoras relatam que foi uma batalha de forças desigual.

 

Reconhecimento da ONU

A data foi esquecida por décadas. Algumas pesquisadoras mais radicais afirmam que a data foi massacrada e totalmente enterrada. Somente com o movimento feminista da década de 1960 o 8 de março foi recuperado. A própria ONU reconheceu o dia internacional da mulher apenas no ano de 1977. Evento que abriu portas para que diversos países passassem a inserir esta data em seus calendários anuais.

Apesar do caráter aparentemente festivo, é de fundamental importância trazer a história deste dia. Existe um motivo que levou à necessidade da fixação de um dia para o reconhecimento da mulher. Este motivo tem muito menos relação com “sutiãs sendo incendiados”, como alguns desinformados acreditam, e muito mais a ver com problemáticas sérias e, infelizmente, atuais. Tais como:

  • Discriminação de gênero
  • Assédio moral, sexual e intelectual
  • Patriarcado
  • Feminicídio
  • Estupro

 

Mais que apenas em 8 de março, é essencial que aquele velho clichê do “todo dia é dia da mulher” passe a fazer parte da consciência coletiva. As mulheres não precisam de flores, mensagens em forma de poesia ou presentes caros uma vez por ano. As mulheres precisam de respeito, dignidade e oportunidades iguais todos os dias do ano. É isso que significa ser dia da mulher todos os dias. Direitos iguais em uma sociedade onde os deveres são cada vez mais pesados nos ombros femininos.

 

As mulheres e a história ocidental

Considerando o estigma perpetuado de fragilidade que as mulheres carregam desde antes de seu nascimento, imagina-se que todo corpo feminino seja reflexo de uma boneca de porcelana guardada em uma redoma de vidro e capaz apenas de decorar o ambiente. Mas, será?

Conheça algumas mulheres que mobilizaram o mundo e fizeram história:

 

Vera Rubin (1928)

Vera Cooper Rubin nasceu na Filadélfia, EUA, em 1928 e faleceu em Princeton no ano de 2016, com 88 anos de idade.

Rubin é considerada por muitos a astrônoma mais importante do mundo. Quando levado em consideração apenas aspectos práticos da formação acadêmica e contribuições para a ciência.

Pioneira no estudo das curvas de rotação de galáxias espirais. A principal contribuição de Vera foi a apresentação de evidências convincentes e irrefutáveis da existência de matéria escura. Boa parte de seus achados foram desmerecidos e transformaram-se em piadas no meio acadêmico por anos. Até que outros pesquisadores – homens – encontraram dados semelhantes e toda a comunidade científica teve que admitir a genialidade da teoria de Rubin.

Após graduada, tentou pós graduação na Universidade de Princeton, mas não obteve sucesso. Isso porque a instituição não aceitava mulheres até 1975. Que arrependimento a universidade não deve ter sentido anos depois, não é mesmo?

Mestre e doutora em física

mulherVera Rubin apresenta uma ideia inovadora em sua tese. A pesquisadora afirmou que as galáxias se aglomeravam no universo. O que enfrentava tudo que se acreditava até o momento. Seus achados levaram mais de 20 anos para serem levados a sério pelo restante da comunidade científica.

A astrofísica foi a primeira mulher a romper algumas das barreiras mais importantes e mais duras do universo científico. Principalmente em um mundo organizado pelo machismo e pela cultura da ciência positiva. Pouquíssimas mulheres antes de Vera tiveram a ousadia – e as condições práticas – de entrar para o mundo das ciências, estudar e trabalhar no campo das ciências aplicadas e deslocar o pensamento homogêneo de que as mulheres não pertencem à universidade e, no máximo, devem submeter-se a cursos equivocadamente considerados femininos, como as ciências sociais e humanas.

Vera Rubin recebeu 7 prêmios oficiais entre os anos de 1993 e 2002. Mais que maior parte dos pesquisadores do mundo. A estudiosa foi aclamada por diversos colegas de trabalho e pesquisadores, que precisaram admitir a perspicácia de seus achados.

A astrofísica foi mencionada em episódio do desenho “The Simpsons” como a melhor opção para recebimento do Prêmio Nobel de ciências.

 

Dandara

Mais que apenas o machismo, Dandara precisou enfrentar outro grande inimigo de uma sociedade igualitária e justa. O racismo.

Dandara viveu no século XVII e foi uma guerreira negra e líder do movimento negro que buscava a liberdade.

A negra dominava técnicas de capoeira e lutou ao lado de outros homens e mulheres em diversas batalhas consequentes aos ataques à Palmares, maior refúgio de escravos do Brasil, situado no atual estado de Alagoas.

mulherPoucas informações se tem sobre a história deste ícone feminino. Não se sabe a data de seu nascimento e não se tem notícias se a mesma nasceu em solo brasileiro ou foi trazida ainda jovem de algum local da África, possivelmente o Congo.

As notícias mais acertadas que se tem sobre Dandara dizem respeito à mesma depois de adulta. Principalmente após vínculo afetivo com Zumbi dos Palmares, que foi seu marido. Mais uma demonstração do patriarcado ao qual as mulheres são constantemente submetidas. Mesmo sendo compreendida como uma das forças mais importantes do movimento negro no Brasil, sua história só parece começar após o casamento.

Lugar de destaque no quilombo

Sabe-se que Dandara se uniu ao grupo de negros que desafiavam o sistema escravocrata colonial ainda jovem. Sendo aclamada por sua inteligência, Dandara foi uma das únicas mulheres a participar da elaboração das estratégias de resistência no quilombo. Muitos historiadores afirmam que sua voz foi ouvida no que tangia aos objetivos com o fim da escravidão, sendo considerada mais perspicaz que seu marido, o grande e tão aclamado Zumbi dos Palmares. Alguns especialistas afirmam que Dandara foi a primeira pessoa a conseguir chegar nas raízes do problema da escravidão, o que a fez ocupar lugar de destaque no quilombo.

Rompendo com todas as imagens que vêm à cabeça quando pensamos em “mulher negra”, Dandara não se encaixava em nenhum padrão de gênero bem estabelecido. Vale destacar que, apesar dos séculos de distância, boa parte dos padrões são exatamente os mesmos impostos atualmente, em pleno século XXI. Desconhecida pela maioria da população, Dandara não costuma ser mencionada nem mesmo nas escolas durante o mês de novembro, período conhecido como o mês da Consciência Negra. Esse apagamento da figura feminina e negra mais importante do Brasil é resultado de uma construção social altamente impregnada por estereótipos machistas, patriarcais e racistas, onde a cor da pele e as genitálias valem mais que as habilidades e contribuições históricas.

Dandara se suicidou em 1694 como saída para não voltar ao lugar de escrava, após ser capturada.

Novembro, o mês da Consciência Negra, precisa ser cada vez mais o mês de Dandara. Isso porque Dandara simboliza não apenas a luta do movimento negro ou a busca por direitos e por uma sociedade mais justa. Dandara é o símbolo da parcela social mais oprimida do nosso país. Mulheres negras altamente habilidosas e cruelmente apagadas por aqueles que nasceram com características biológicas mais “apreciáveis” ou “agradáveis”.

Dandara é a representação máxima da luta pela autonomia feminina. Dandara é a luta contra toda discriminação de cor e gênero. Dandara é a maior demonstração que de frágil a mulher só leva a fama.

 

Frida Kahlo (1907)

Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, mundialmente conhecida como Frida Kahlo, foi uma pintora mexicana considerada como a mais importante artista do século XX da história. Frida nasceu em 1907 e faleceu em 1954, com apenas 47 anos de idade.

mulherKahlo é aclamada em vários lugares do mundo por sua história de superação e por sua luta constante contra todas as doenças e acidentes que ao qual foi acometida desde muito cedo.

Sendo considerada um dos nomes mais importantes do movimento feminista no mundo, Frida Kahlo sempre ressaltava que cresceu rodeada por mulheres, mas que seu porto seguro sempre foi seu pai. A artista é um símbolo indiscutível de força e de garra.

Com apenas seis anos de idade, a pequena Frida contraiu poliomielite em 1913. A doença lesionou permanentemente seu pé direito. O apelido de Frida perna de pau advém desse fato, que a acompanhou por toda a vida. Foi devido a esta lesão que Frida passou a utilizar as saias longas e exóticas que, mais tarde, tornaram-se sua marca registrada.

Cerca de 12 anos depois, com apenas 18 anos de idade, Frida sofre um grave acidente que muda toda sua vida. O bonde no qual a artista viajava chocou-se com o trem. O acidente perfurou as costas de Frida e lhe causou fratura pélvica e hemorragia.

Entre a vida e a morte

Na tentativa de sobreviver, Kahlo precisou passar por quase 40 operações. O acidente perfurou o corpo inteiro de Frida. Ela precisou reconstruí-lo quase que inteiramente. A artista ficou entre a vida e a morte por meses no hospital e foi nesse período que a mesma começou a pintar.

Diferente da maioria dos artistas, Frida não sonhava com este dom desde pequena. Não começou suas atividades como pintora ainda jovem.

Mais que apenas a saúde de seu corpo, o acidente levou a oportunidade de Frida ser mãe. Devido ao choque do bonde com o trem aos 18 anos, a artista teve seu útero totalmente perfurado, o que impossibilitou qualquer chance da conclusão de uma gestação. Apesar do desejo, todas as tentativas terminavam com abortos espontâneos. Frida passou por 3 abortos antes de desistir do sonho de ser mãe.

A pintora foi encontrada morta em 1954, após contrair uma pneumonia grave. Apesar do atestado de óbito da artista constar como causa da morte embolia pulmonar, não se descarta a possibilidade de suicídio por abuso – consciente ou não – dos diversos medicamentos que precisava tomar.

Tentativas de suicídio

Durante sua vida, Frida realizou diversas tentativas de suicídio com facas e martelos, o que coloca em pauta sua morte.

Frida Kahlo é um dos nomes mais importantes do movimento feminista, da arte e dos casos de superação. Por este motivo, muito se fala sobre a artista. Diferente do que se afirma em alguns espaços, Frida e seu marido não partilhavam de uma relação aberta. Diego, seu marido, teve dezenas de relações extraconjugais não necessariamente aceitas pela esposa. Assim como Frida.

A relação de Frida Kahlo e Diego foi intensa e fortemente marcada por brigas e traições de ambos os lados. Definitivamente, não era uma relação aberta.

Frida e Leon Trotsky, um dos mais importantes nomes do marxismo, foram amantes.

Considerada por muitos como uma mulher a frente de seu tempo, Frida era apaixonada pela arte e a usava como ferramenta terapêutica. Mesmo nos momentos mais sofríveis de sua vida. Depois de começar, Frida Kahlo nunca parou de pintar.

A maior artista feminista do século XX deixou sua marca registrada no mundo. Fez com que sua força e sua garra se perpetuassem no tempo. Mostrou que é possível superar mesmo os desafios mais temíveis.

 

Nong Toom (1981)

Parinya Charoenphol,, conhecida no mundo pelo apelido de Nong Toom, é uma tailandesa nascida em 1981.

Com 36 anos de idade, Nong ficou conhecida por se tornar campeã mundial em Muay Thai.

A tailandesa saiu da Ásia para mostrar ao mundo todo seu potencial e os resultados incríveis de uma vida e uma rotina dedicadas e comprometidas com seus objetivos.

Apesar de ter apresentado seu nome ao mundo devido a suas impressionantes habilidades de atleta, hoje Toom é atriz e modelo. Nong vem da Ásia, ganha o mundo como campeã de uma atividade fortemente associada aos homens, como as lutas, e atualmente trabalha como modelo e atriz. Nong Toom representa a heterogeneidade possível para toda a mulher. Nos faz lembrar que o mundo é maior. Que conta com mais ícones do que costumamos pensar.

Na Europa, na América, na África ou na Ásia, o mundo conta com bilhões de campeãs prontas para serem descobertas.

 

Madre Teresa de Calcutá (1910)

Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, conhecida em todo o mundo como Madre Teresa de Calcutá, foi uma religiosa indiana que nasceu em 1910 e veio trazer amor e paz para um mundo pré guerras. Madre Teresa de Calcutá nasceu em Üsküp, no Império Otomano.

A religiosa foi a fundadora da congregação das Missionárias da Caridade. Seu principal objetivo em vida foi prestar cuidados as populações em situação de alta vulnerabilidade social e carência.

No ano de 2015, a fundação contava com mais de 5 mil pessoas em 140 países ao redor de todo o mundo. Infelizmente, a religiosa não teve oportunidade de ver isso, pois faleceu em 1997, com 87 anos, de ataque cardíaco.

mulher

Santa das Sarjetas

Devido ao seu trabalho de caridade e cuidado com o próximo, sempre visando as populações pobres, recebeu o apelido de Santa das Sarjetas. Entre os anos de 1968 e 1989, Madre Teresa de Calcutá viajou o mundo em nome de sua congregação transmitindo mensagens de amor e atendendo os mais necessitados. Em suas viagens, a religiosa conheceu lugares como:

  • Albânia
  • Rússia
  • Cuba
  • Canadá
  • Palestina
  • Bangladesh
  • Austrália
  • Estados Unidos
  • Ceilão
  • Itália
  • China
  • URSS

Madre Teresa de Calcutá marcou o mundo e fez história demonstrando o poder do amor e a importância do cuidado e do respeito ao próximo.

Em um mundo repleto de ódio e intolerâncias, Madre Teresa é um lembrete das possibilidades que se abrem quando olhamos o próximo com mais empatia e amorosidade. O trabalho da religiosa foi reconhecido por diversas instituições em todo o mundo, inclusive pela ONU. No ano de 1979, Madre Teresa recebeu o prêmio mais importante do mundo: o Nobel da Paz.

O mundo precisa de mais Madres Teresas de Calcutá. Não para aumentarmos o volume de trabalhos voluntários de caridade, mas para lançarmos política de assistência social, saúde e educação efetivas e comprometidas com a dignidade humana e com o respeito às populações e as singularidades. Somente assim alcançaremos um mundo onde caridades não serão mais necessárias.

 

Maria da Penha (1945)

Maria da Penha Maia Fernandes, mais conhecida como Maria da Penha, nasceu em 1945 na cidade de Fortaleza, Ceará. Maria da Penha é farmacêutica e líder de movimentos em defesa dos direitos da mulher. A farmacêutica é considerada por alguns o caso mais emblemático de violência doméstica do Brasil.

Maria da Penha ficou conhecida pela sua luta para que seu agressor fosse condenado por seus crimes, que contemplam duas tentativas de homicídio e anos de agressões físicas e psicológicas.

Depois das duas tentativas de homicídio por parte de seu marido, Maria da Penha ficou paraplégica. Seu ex marido foi condenado apenas 19 anos depois do ocorrido e ficou preso por apenas 2 anos. Hoje ele está livre.

A Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) considerou o caso de Maria da Penha como crime de violência doméstica. Esta foi a primeira vez na história que um caso de violência doméstica foi considerado crime.

Lei Maria da Penha

No ano de 2006, foi sancionada a lei que leva o nome da vítima, Lei Maria da Penha. Esta lei é uma ferramenta legislativa fundamental para o combate de violência doméstica e familiar contra o público feminino em todo o território nacional.

mulherComo resultado da criação da lei e de todo o empenho durante sua vida no combate à violência contra a mulher, Maria da Penha teve seu nome cogitado para o Prêmio Nobel da Paz no ano de 2017, premiação mais importante do mundo.

Maria da Penha é um símbolo real e irrefutável da cultura patriarcal que nos rodeia. Mesmo após duas tentativas de assassinato, seu esposo foi condenado apenas seis antes do crime “caducar” na justiça. A força e a mobilização de Maria da Penha foram fundamentais para que milhares, talvez milhões, de outras vidas fossem salvas pela lei que leva seu nome.

Enquanto estivermos imersos em um sistema desigual, opressor e discriminatório leis de proteção e políticas afirmativas continuarão se fazendo necessárias.

Para aquelas que não sabem, a lei Maria da Penha não prevê apenas violência no âmbito matrimonial. Mulheres agredidas por seus pais, familiares e até mesmo amigos ou conhecidos podem recorrer a esta lei. A lei Maria da Penha faz parte da política de proteção a mulher e pode ser acionada sempre que a vítima for uma mulher, independente do agressor ser ou não seu marido e, inclusive, ser ou não do sexo masculino. De modo geral, a lei é associada a agressões de maridos por este ser o cenário mais comum, mas não é uma regra.

 

Lugar de mulher

Astrofísicas, artistas, líderes de movimentos coletivos, campeãs e atletas de luta, empresárias, farmacêuticas, religiosas… Existem mulheres fazendo história ao redor do mundo nos mais variados campos de atuação.

As mulheres são heroínas que não precisam de capas. A força e a resiliência feminina são aspectos que precisarão de muitos estudos ainda para serem melhor compreendidos.

A mensagem comum apresentada pelos ícones do movimento feminista apresentados neste texto é que a mulher pode ser e fazer aquilo que desejar. Desde esposa e dona de casa até astrofísica renomada mundialmente. De professora de educação infantil à chefe da NASA. De médica à caminhoneira. As mulheres têm condições para desenvolverem as atividades que acharem mais adequadas à sua personalidade, e o que falta de liberdade social sobra em força para lutar por um mundo mais justo e livre.

 

Ser mulher: a violência e as relações abusivas

mulherDe acordo com o Mapa da Violência 2012 – Homicídios de Mulheres, uma mulher é agredida no Brasil a cada 5 minutos. O mesmo levantamento demonstrou que nosso país é o 7º com maior taxa de feminicídio do mundo. O DataSUS, setor do Ministério da Saúde, demonstrou que uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil. Significa que são 372 homicídios por mês.

As mulheres são as principais vítimas de violência física e sexual em todas as faixas etárias. A violência contra a mulher foi o motivo de mais da metade dos atendimentos realizados em toda a rede pública de saúde durante o ano de 2011.

Estudo apresentado pelo Banco Mundial afirma que uma mulher é estuprada no Brasil a cada 11 minutos. São 130 brasileiras estupradas diariamente. A mesma pesquisa ressalta que é mais provável que uma mulher com idade entre 14 e 44 anos seja estuprada do que seja vítima de câncer ou acidente.

 

Dados alarmantes

Os dados brasileiros são alarmantes – e assustadores. Em 2016, o Datafolha ressaltou que 85% das mulheres têm medo de sofrer algum tipo de violência toda vez que precisam sair de casa.

Diversos estudos apontam para uma constelação de fatores associados ao cenário de perpetuação da violência e relações abusivas. Entre os principais fatores, destacam-se:

  • Uso de substâncias entorpecentes, em especial o álcool
  • Alto grau de intolerância
  • Negação ou sublimação, ou seja, acreditar que “foi a última vez” ou que “foi coisa da minha cabeça”. Basicamente, fazer uso de qualquer justificativa para o ato e acreditar no seu fim, mesmo sem nenhum indício concentro do mesmo
  • Fatores culturais
  • Educação sexista

Além desses fatores, as relações desiguais entre os gêneros e a construção social do gênero feminino como frágil ou inferior apresentaram-se como dois dos principais fatores associados a perpetuação de uma sociedade perversa e cruel com as mulheres desde seu nascimento.

A inserção em uma cultura patriarcal que atua na despotencialização da mulher, principalmente quando associada a um relacionamento abusivo, interfere drasticamente na construção subjetiva do feminino na mulher e na autoestima da mesma.

O contexto ao qual pertencemos dá respaldo para a forma com a qual vamos enxergar a nós próprias, aos outros e ao mundo.

 

A rotina e a saúde da mulher

Com o advento das tecnologias, a globalização e a aceleração da rotina, as mulheres estão assumindo cada vez mais tarefas, o que pode desencadear em maiores níveis de estresse e autocobrança.

A mídia, por sua vez, apresenta patamares extremamente elevados para o desempenho feminino, o que corrobora a noção de que você não está sendo suficiente, que você não possui as ferramentas necessárias para obter sucesso, que há algo de errado – e muito – com você.

A mídia é uma das principais responsáveis pela modelação do que é sucesso e fracasso e do que é felicidade e tristeza na contemporaneidade. Considerando as exigências midiáticas, muitas mulheres só encontram satisfação quando atingem esferas de aceitação social impraticáveis.

O mês de março é fundamental para lembrarmos a todas as mulheres do mundo que elas não estão sozinhas. Que há milhões de outras pessoas passando pelas mesmas pressões e ansiedades e que cuidar da saúde, seja esta física, emocional ou mental, é fundamental para que crises ainda mais sérias não se façam presentes.

Conclusão?

Como se conclui uma reflexão dessas? Qualquer fechamento parece deveras simples para um tema complexo como a cultura machista e o universo e cotidiano feminino.

Uma afirmativa é certa: que os movimentos coletivos mantenham-se firmes na luta por um mundo mais justo, mais humano, mais ético e menos discriminatório, violento e opressor.

No fim, que importam as conclusões se o belo da jornada é justamente o caminho trilhado. A beleza e a potência das mulheres está no entre. Entre seu nascimento e sua morte algo fantástico aconteceu: a vida. Que este texto utilize-se disso como inspiração. Sem fechamento, sem conclusão, que o apreciado sejam os entres aqui presentes.

Vamos combinar apenas uma coisa: você não precisa mais carregar todo o peso do mundo, ok?

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