Home Saúde A luta pelo fim da Mortalidade Materna – Como parar com essa tragédia?

A luta pelo fim da Mortalidade Materna – Como parar com essa tragédia?

por Redação EstraBlog

A mortalidade materna é um sério problema de saúde pública que preocupa diversos países ao redor do mundo, além da Organização Mundial de Saúde (OMS). De acordo com os últimos levantamentos, o Brasil reduziu significativamente suas taxas de mortalidade materna desde a década de 1990. Entretanto, estamos muito longe de atingir a meta proposta pela OMS para 2030, que é apenas 30 mortes materna para cada 100 mil nascimentos.mortalidade materna

Descubra nesse artigo os principais objetivos do Dia Nacional da Luta pela Redução da Mortalidade Materna, quais estratégias estão sendo implantadas para melhorar o cenário obstétrico nacional e quais são as principais causas de morte materna no Brasil. Boa leitura!

Luta pela redução da mortalidade materna – A data

O Dia Nacional da Luta pela Redução da Mortalidade Materna está incluído no calendário da saúde em 28 de maio, juntamente com outra data importante para as mulheres brasileiras: o Dia da Saúde da Mulher.

O principal objetivo dessa data é promover debate a nível nacional sobre a importante dos cuidados inerentes à saúde da mulher. Espera-se que o desenvolvimento de tais debates e o amadurecimento das propostas nesse campo da saúde reflitam em mudanças palpáveis nas políticas públicas destinadas aos cuidados com as mulheres.

O fortalecimento dessa luta é fundamental para a construção de políticas públicas e estratégias pautadas em um fazer em saúde ético e coerente com as necessidades reais das gestantes e das mulheres brasileiras.

A importância mundial da redução da mortalidade materna

A redução da mortalidade materna está entre as principais metas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Os últimos levantamentos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram crescente aumento na proporção de mulheres em território nacional. Se em 2010 as mulheres já eram maioria, compondo 51% da população nacional, o censo de 2014 demonstrou que a proporção de mulheres para homens continuará crescendo. De acordo com o IBGE, 54% da população brasileira de 2014 era composta por mulheres.

Além de ser maioria, a expectativa de vida feminina é cerca de 7 anos mais alta que a masculina, de acordo com levantamentos e estudos divulgados em 2017. Com esses significativos sete anos a mais de vida, é fundamental que as políticas de saúde estejam atentas às necessidades do público feminino, a fim de garantir que seu desenvolvimento e seu envelhecimento ocorram o mais confortável e tranquilo quanto possível.

Infelizmente, a cultura machista e utilitarista que envolve as mulheres de todo o ocidente e boa parte do mundo coloca pressões e cobranças sociais demais em cima de seus ombros. Com todo o compromisso de serem:

  • mortalidade maternaMães perfeitas
  • Profissionais competentes
  • Donas de casa exemplares
  • Pessoas sensíveis e delicadas

Faz, cada vez mais, com que as mulheres sejam acometidas pelas mais variadas doenças. Boa parte dessas mulheres sequer percebem-se do problema até que o mesmo esteja em níveis preocupantes de agravamento. O que denota a importância da construção de políticas de assistência que acompanhem as mesmas e lhes proporcione o cuidado necessário.

A atualidade construída a partir do sistema patriarcal implanta a noção subjetiva de que as mulheres apenas serão completas após a maternidade. Com essa concepção, a grande maioria das mulheres tornam-se mães ou, no mínimo, o tentam. Nesse sentido, apostar em medidas de proteção e cuidado às gestantes e mães é uma forma efetiva de fortalecer o comprometimento e a assistência a boa parte das mulheres.

Histórico da mortalidade materna no Brasil, na América Latina e no mundo

De acordo com a OMS, o Brasil e diversos outros países da América Latina deram passos importantes no avanço à redução da mortalidade materna entre o período de 1990 e 2015. Nesse período, a taxa de mortalidade materna brasileira diminuiu em 45%.

Indo para além da América Latina, as taxas de mortalidade associadas à complicações na gestação e trabalho de parto de todo o mundo estão diminuindo significativamente após mobilizações da OMS. Entretanto, a pré-existência de condições médicas sensíveis e o diagnóstico de doenças crônicas continuem sendo um problema para a prevenção da mortalidade materna.

Causas da mortalidade materna

Diversos especialistas e estudiosos da saúde, saúde pública, saúde da mulher e obstetrícia apontam para uma constelação de fatores que estão associados as dificuldades no combate à mortalidade materna.

Entre os principais fatores associados à mortes durante a gestação ou nos primeiros 45 dias após o nascimento estão:

Excesso de intervenções desnecessárias e utilização de tecnologias sem evidências científicas

Infelizmente, médicos, enfermeiros e equipes de profissionais da saúde obstétrica aplicam diversas tecnologias e intervenções no corpo feminino sem necessidade e, inclusive, sem autorização das mesmas. Diversos estudos demonstram que a utilização de intervenções desnecessárias estão entre as principais razões de morte materna.

Estudo publicado no ano de 2016 pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) coletou dados de 91% dos hospitais públicos e privados da cidade de Salvador. Essa pesquisa demonstrou que 87% das instituições estudadas faziam uso de tecnologias sem qualquer cuidado com as evidências científicas ou com a sua necessidade.

De acordo com as autoras, os cuidados no setor de pediatria e na CTI possuíam minimamente alguma padronização e discussão interna entre os profissionais responsáveis pelas alas. Entretanto, os pacientes do restante das alas analisadas passavam por intervenções sem qualquer discussão prévia entre profissionais, sem padronização e sem cuidados com as evidências científicas sobre sua eficácia ou necessidade. O estudo analisou um total de 5 alas hospitalares:

  • mortalidade maternaPsiquiatria e saúde mental
  • Obstetrícia, neonatal e maternidade
  • Medicina de urgência e pronto socorro
  • CTI e UTI
  • Pediatria e saúde infantil

Falta de qualificação profissional

A saúde é um campo de atuação que exige reciclagem e atualização constante por parte de seus profissionais. A ciência descobre novas tecnologias e novos modos de conduzir as intervenções e a prática cotidianamente. É fundamental que profissionais que atuam com o cuidado do outro estejam atualizados sobre as melhores formas de realizar suas práticas de assistência. Somente assim o cuidado prestado na saúde será integral e capaz de suprir as demandas do público acolhido.

Infelizmente, essa não é uma realidade no atual contexto nacional. Boa parte dos profissionais de saúde formando-se, ingressam no mercado de trabalho e não mantém nenhuma preocupação de reciclagem sobre as novidades que englobam suas profissões. Estudo publicado em 2013 pela Universidade de Salamanca (Espanha) demonstrou que problemas na qualificação profissional estão entre as principais razões de mortes que poderiam ser evitadas entre pacientes de 3 dos maiores hospitais espanhóis.

Proibição do aborto

A proibição e criminalização do aborto não impede as mulheres de praticarem o aborto. Infelizmente, a realidade brasileira desse tema é racista, preconceituoso e elitista.

Sabe-se, hoje, que mulheres de classe média, média alta e alta que desejam abortar o fazem. Essas mulheres tem passe livre em clínicas particulares, passando por cirurgias com médicos capacitados e recebendo todo o cuidado e recomendações necessárias para o pós operatório.

Em contrapartida, as mulheres da periferia ou de classe baixa submete-se a situações degradantes e perigosas na tentativa de abortar. Muitas dessas mulheres não recebem qualquer tipo de assistência e, quando o recebem, é por leigos e pessoas sem qualquer habilidade técnica para esse exercício.

Algumas dessas mulheres fazem uso de chás, medicamentos e outras estratégias caseiras na tentativa de abortar sem recorrer a estranhos e a “açougues humanos”, como são conhecidos os lugares decadentes em que as supostas cirurgias ocorrem. Infelizmente, muitas dessas tentativas caseiras não resultam no aborto desejado. O resultado mais comum dessas tentativas são lesões e sequelas graves e, em alguns casos, permanentes nos fetos. E, obviamente, um número assustador de mulheres morrem durante essas tentativas.

A proibição do aborto não faz com que mulheres não abortem.

A proibição do aborto faz com que mulheres com condições sociais mais avantajadas paguem pelo procedimento e assinem, posteriormente, uma nota da clínica com qualquer outra justificativa, como “cirurgia de apendicite” ou “procedimento estético”, por exemplo. A mesma proibição do aborto faz com que mulheres sem essas condições sociais submetam-se a procedimentos perigosos para elas mesmas e para o feto.

Estudos conduzidos pelas mais importantes universidades européias já demonstraram que liberar o aborto não incentiva essa prática. Ao contrário, esses estudos apontam que a liberação e a regulação da prática reduziu em até 35% a taxa de abortos nos países estudados. Com acompanhamento assistencial e psicológico, a quantidade de mulheres que desistiram do aborto é surpreendente.

Por outro lado, a proibição do aborto foi o motivo número 1 de morte materna nos anos de 2010 e 2011, de acordo com dados divulgados em 2013 pelo Ministério da Saúde.

Altas taxas de cesáreas

Diferente do que a indústria da comercialização da saúde, também conhecido como planos privados de saúde, fazem a população pensar, os partos normais são muito, mas muito mais seguros para as mulheres e para os bebês do que os partos realizados os cesárea.

mortalidade maternaOs procedimentos invasivos, as humilhações e todo o entorno da violência obstétrica comumente ocorrida durante os partos normais fazem com que essa experiência pareça mais assustadora e mais dolorosa do que o é, ou deveria ser.

A OMS e o Ministério da Saúde já divulgaram inúmeras vezes as altas taxas de riscos que mulheres expostas ao parto por cesárea passam que, de modo geral, não ocorrem com aquelas que dão à luz via parto normal.

Com o parto normal, a mulher terá seu filho no momento em que seu corpo – e seu bebê – estiverem verdadeiramente prontos para o procedimento. Durante o aumento da frequência de dilatação, é possível que as mulheres sejam assistidas por enfermeiras obstétricas e façam alguns exercícios físicos leves, como pequenas caminhadas pelos corredores dos hospitais. Cada vez mais, os hospitais públicos estão aderindo as práticas de parto humanizado, que prevêem a autonomia e protagonismo da gestante no momento do nascimento.

Mulheres que passam pela experiência do parto normal estão fisicamente recuperadas poucas horas – máximo alguns dias – após o procedimento. Em contrapartida, mulheres que são submetidas a cesariana precisam de semanas para recuperação e cicatrização dos cortes. O procedimento cirúrgico é mais delicado e os cuidados pós operatórios são mais longos e complexos.

Alguns estudos conduzidos pela PUC-Rio, Unicamp e UFPR e divulgados entre os anos de 2014 e 2017 demonstraram que a experiência de nascimento através de cesárea está fortemente associada ao desenvolvimento posterior de:

  • Depressão pós parto
  • Distúrbios no desenvolvimento infantil
  • Mortalidade neonatal
  • Mortalidade materna

Diferente do que a maioria da população imagina, o parto normal pode – e deve – ser uma experiência positiva e repleta de boas recordações para a mulher. Os estudos divulgados pela Unicamp e pela UFPR demonstraram que o procedimento de cesárea aumenta de 3,0 à 3,5 vezes o risco de mortalidade materna e de 2,8 à 3,1 o risco de mortalidade neonatal, quando comparado ao parto normal.

Estratégias para combater a mortalidade materna

A Estratégia Rede Cegonha é o principal programa em vigência que atua no combate à mortalidade materna e neonatal. O programa instituído pelo Ministério da Saúde tem como objetivos proporcionar saúde, qualidade de vida e bem estar às mulheres durante:

  • mortalidade maternaConfirmação da gestação
  • Gestação
  • Parto
  • Pós-parto
  • Desenvolvimento da criança até seus dois anos completos

Entre os objetivos da Rede Cegonha também encontra-se a redução da mortalidade materna e neonatal, principalmente através da construção de práticas de atenção mais humanizadas e próximas da realidade da população feminina.

O programa da Rede Cegonha também prevê o planejamento familiar, que deve ser acompanhado por profissionais da enfermagem alocados nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), proporcionando maior praticidade para as mulheres acessarem os serviços de saúde sem necessidade de deslocamento até os centros urbanos.

Infelizmente, a Estratégia Rede Cegonha ainda é incipiente e, por esse motivo, necessita de um tempo para apresentar resultados estatisticamente significativos, assim como todas as políticas de longo prazo.

A presença de governos sensíveis às necessidades da população e conscientes da importância dos investimentos em saúde são fundamentais para que esse e todos os demais planos em saúde sejam adequadamente conduzidos. Desde sua tomada no poder, o governo Temer barrou boa parte dos investimentos destinados à Estratégia Rede Cegonha, o que está dificultando o desenvolvimento desse programa e, consequentemente, a assistência humanizada e sensível às mulheres e as famílias dos cinco cantos do Brasil.

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