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O que morreu junto com Marielle Franco?

por Redação EstraBlog

Marielle Franco foi uma mulher negra e lésbica advinda da periferia que ascendeu na carreira política ainda jovem. Com apenas 36 anos de idade e toda uma vida pela frente, Marielle foi eleita vereadora no Rio de Janeiro, sendo uma das candidatas mais votadas pela população.

Impactando todo o país e causando inúmeros questionamentos e desconforto na mídia mundial, Marielle Franco foi brutalmente assassinada no dia 14 de março de 2018. Neste artigo você saberá quem foi Marielle, quais circunstâncias de sua morte fizeram o mundo virar os olhos para o Brasil e as razões que levaram todo o país a prestar comoção pelo seu precoce falecimento.

Boa leitura!

Marielle Franco

Quem foi Marielle?

Marielle Francisco da Silva, mais conhecida como Marielle Franco, nasceu no inverno de 1979. Com apenas 19 anos de idade, Marielle deu à luz a Luyara em 1998. Apesar dos boatos equivocadamente propagados, a carioca não foi casada e não teve nenhum relacionamento afetivo com Marcinho VP, conhecido traficante do RJ.

Jovem, negra, mãe solteira e advinda da periferia, Marielle batalhou desde cedo para ascender na vida e proporcionar à filha a oportunidade de conhecer um país e um mundo mais justo.

Apesar dos claros obstáculos, a carioca cursou o ensino superior e formou-se em Sociologia. A inserção nos muros acadêmicos, tão distantes da vida na periferia, foram fundamentais para que Marielle abrisse os olhos e enxergasse as desigualdades e injustiças sociais com ainda mais clareza.

Paulatinamente, a jovem percebeu-se feminista e militante dos direitos humanos. Apesar do contato desde jovem com a política devido às inúmeras intervenções nas favelas cariocas, a educação superior, a percepção das desigualdades e o desejo de construir um mundo melhor e mais justo foram fundamentais para sua inserção do cenário político brasileiro. Filiada ao PSOL, Partido Socialismo e Liberdade, Marielle elegeu-se como vereadora do Rio de Janeiro em 2016, sendo uma das candidatas com maior número de votos.

Crítica do abuso de autoridade e racismo policial, Marielle sempre posicionou-se contra as violentas intervenções federais nas favelas do RJ. Com coragem que transcendia sua pequena estatura, Marielle foi uma vereadora sem papas na língua e sem medo de denunciar as pequenas e grandes máfias do Rio de Janeiro.

Com apenas 38 anos de idade, Marielle Franco foi brutalmente assassinada na noite de 14 de março de 2018. Seu homicídio causou comoção nacional e polêmica mundial, principalmente pelas investigações apontarem para execução policial como causa da morte. Eventos, marchas e mobilizações vêm sendo realizadas em todos os cantos do país como uma forma de homenagear a política.

O que morreu junto com Marielle?

Em tese, todas as vidas possuem o mesmo valor. Nesse sentido, qual a diferença entre a morte de Marielle e de qualquer outra pessoa que tenha, inclusive, falecido no mesmo 14 de março?

A diferença está no significado da vida de Marielle e na representação simbólica de sua morte.

Persona Marielle

Marielle FrancoAinda que não percebamos, nossas vidas possuem significados diferentes – ainda que o valor, em teoria, seja o mesmo.

Mas o que é o “significado” de uma vida?

Significado é a constelação de signos (ou seja, símbolos) de uma pessoa sobre as outras. Em outras palavras, são as inferências dos outros sobre você. Os signos podem ser sobre quaisquer aspectos, inclusive sobre características que você sequer imagina.

Fazendo uso de Marielle como exemplo: uma mulher, uma pessoa negra, uma pessoa homossexual, uma pessoa que mora na periferia, uma pessoa que foi mãe jovem, uma pessoa que criou sua filha sozinha. São muitos os signos carregados por Marielle.

Agora una todos estes signos em uma pessoa e dê um diploma universitário à ela. Depois disso, a faça ascender na carreira e estar entre as mais qualificadas profissionais de sua área de atuação.

Pronto. Este é o significado de Marielle.

Marielle é a representação de todas as mulheres, de todas as negras, de todas as lésbicas, de todas as moradoras da periferia, de todas as mães jovens, de todas as mães solteiras que chegaram à universidade, se graduaram e ascenderam profissionalmente.

Os signos de uma pessoa representam tudo aquilo que uma determinada população almeja, ou mesmo aquilo que as pessoas acreditam que nunca alcançarão. Basicamente, Marielle representa a voz de diversas populações excluídas e não ouvidas.

Mais que um corpo, mais que um aglomerado de sangue, ossos e carne, Marielle possuía um valor simbólico extremamente forte no cenário atual sócio-político brasileiro. Daí a representação simbólica de sua morte.

Mais que uma simples morte, Marielle Francisco da Silva foi brutalmente assassinada por aqueles que, em tese, fazem parte da parcela que protege a população: a polícia, mais especificamente, a polícia militar (PM). Ou assim indica todas as investigações até o momento.

Qual o valor simbólico da morte de Marielle?

Marielle FrancoQuando uma mulher morre, isso tem peso Q.

Quando uma pessoa homossexual morre, isso tem peso W.

Quando uma pessoa negra morre, isso tem peso E.

Quando uma mãe jovem morre, isso tem peso R.

Quando uma mãe solteira morre, isso tem peso T.

Quando uma figura pública morre, isso tem peso Y.

Quando uma pessoa moradora da periferia morre, isso tem peso U.

Quando uma pessoa que luta pelos direitos sociais morre, isso tem peso I.

Compreende a representação simbólica da morte de Marielle Franco? Seu assassinato tem peso Q + W + E + R + T + Y + U + I para a sociedade. Acrescentando ao cenário a circunstância de sua morte: uma execução premeditada pela Polícia Militar, não é difícil visualizar o impacto do homicídio de Marielle para a sociedade.

Mais que o corpo de Marielle, as balas tinham como alvo a persona da vereadora. Ou seja, tudo que ela representava: todas as suas lutas e todas as populações que ela simbolizou durante a vida.

A mensagem da PM

A Polícia Militar e seus óbvios mandantes atacaram não apenas o corpo de Marielle Francisco da Silva. Seu objetivo maior foi aniquilar as suas lutas e, naturalmente, passar uma mensagem.

Marielle FrancoSem ser necessário analisar mais profundamente o cenário, a mensagem mais óbvia passada pelo homicídio da vereadora parece bastante claro aos olhos mesmo dos mais desatentos: “Somos nós que detemos o poder e qualquer um que entrar em nosso caminho será liquidado”.

Claramente existem outras mensagens, mas esta já parece demonstrar suficientemente bem a escolha da vítima. Sendo um aviso acerca do poder, da violência e da máfia que está impregnado no atual sistema de segurança falido do Brasil, Marielle era a vítima perfeita: uma mulher que representa boa parte das minorias e que dá voz às denúncias contra o preconceito e a desigualdade.

Nomeada pouco antes de seu homicídio, a vereadora trabalhava na comissão parlamentar designada a acompanhar o processo de intervenção militar na cidade do Rio de Janeiro. Assim como diversos sociólogos, cientistas políticos, historiadores, médicos, psicólogos, educadores, cientistas sociais, antropólogos e outros especialistas, Marielle sempre afirmou que a intervenção militar não é resposta para os conflitos ou para as organizações criminais. O que a periferia necessita é intervenção social, aposta na educação e oportunidades justas, e não violência, abuso de poder e militares.

Profissionais de diversas secretarias de saúde, direitos humanos e educação de todo o Brasil – e boa parte do mundo – alertam que o assassinato de Marielle não foi apenas uma violência contra a mulher. Este ato também pode ser caracterizado como uma violência contra os homossexuais e contra a negritude. Mais que isso, considerando seu cargo político democraticamente eleito, o homicídio de uma vereadora simples e puramente por cumprir seus deveres profissionais é caracterizado também como uma violência contra a própria democracia, de acordo com o atual presidente, Michel Temer.

E depois da morte de Marielle?

Desde 15 de março de 2018, um dia após o brutal e covarde assassinato da vereadora, o mundo virou os olhos, mais uma vez, para o cenário político brasileiro. Alguns dos meios de comunicação mais importantes do mundo, como:

  • BBC
  • The Guardian
  • The Washington Post
  • El Pais
  • The New York Times

são responsáveis por divulgar e levar ao restante do mundo a notícia sobre a execução de Marielle.

De acordo com alguns desses jornais, é inconcebível que uma política – ou seja, uma funcionária pública que atua a serviço da população – seja brutalmente assassinada pela Polícia Militar, órgão também público que, teoricamente, atua a favor da segurança nacional.

Marielle tornou-se notícia em programas televisivos de todo o mundo, por exemplo:

  • Argentina
  • Peru
  • Chile
  • Estados Unidos
  • México
  • Inglaterra
  • Itália
  • Moçambique

Naturalmente, a comoção nacional não ficou atrás.

Desde sua prematura morte, Marielle tem sido homenageada por milhões de brasileiros e brasileiras em todos os cantos do país. Já foram organizados inúmeros protestos, mobilizações, passeatas e movimentações em luto à sua execução. Mensagens de “Marielle vive” estão ocupando muros de todas as esquinas brasileiras.

Marielle Franco

A representatividade de Marielle e a sociedade do ódio

Apenas algumas horas após sua morte, a vereadora é atacada e sua imagem é manchada na Internet por diversos cidadãos contrários às suas lutas e por alguns formadores de opinião da direita nacional.

O ódio, o preconceito, o machismo e a mentira se espalham e viralizam nas redes sociais pouquíssimo tempo depois da notícia sobre a execução de Marielle Franco.

Formadores de opinião da direita e extrema direita do Brasil servem-se de informações não comprovadas e, em alguns casos, claramente falsas para difamar a imagem da política. Entre as organizações que fizeram uso de inverdades premeditadas com o objetivo de manchar a imagem de Marielle, destacam-se:

  • Bancada da Bala: frente parlamentar que luta pelo direito ao armamento civil e defensores fervorosos das intervenções militares. Diversos estudiosos políticos alertam para o fato desta organização possuir algumas figuras claramente violentas e desequilibradas
  • Democratas (DEM): partido político centro-direitista com um dos maiores índices de corrupção comprovadas. Aliado do governo Temer, o DEM manteve como seu filiado até pouco tempo o possível candidato presidencial Jair Bolsonaro, apesar dos inúmeros processos contra o político devido aos mais diversos crimes, dentre os quais se destacam assédio moral e sexual, lavagem de dinheiro e violação dos direitos humanos. DEM é considerado por inúmeros cientistas políticos um dos partidos mais claramente conservadores e retrógrados atuais
  • Movimento Brasil Livre (MBL): movimento político liberal e conservador. O movimento possui diversos posicionamentos que dançam entre o posicionamento de direita e extrema direita nacional. O MBL uniu forças com a Bancada Evangélica e Ruralista do Congresso para defender pautas como a adesão de um Estado mínimo, reforma trabalhista e redução da maioridade penal. O movimento foi o principal organizador de diversos protestos à favor do golpe contra a então presidente, Dilma Rousseff.

 

Quantas outras Marielles serão necessárias?

A noite de 14 de março de 2018 trouxe ao cenário nacional mais que a execução cruel e covarde de Marielle Francisco da Silva.

A execução de uma política democraticamente eleita devido ao seu fazer profissional é um atentado não apenas ao sujeito Marielle, mas à todos os seus eleitores e ao próprio sistema democrático – já tão frágil atualmente.

Assassinar Marielle é a demonstração máxima do silenciamento ao qual todos estamos submetidos.

Como não poderia deixar de ser, este crime (re)abriu feridas aparentemente não tão cicatrizadas assim. A questão em aberto nesse momento é. O que fazer após a morte de Marielle? A luta por um mundo mais justo e humano vai ser abandonada ou este crime fortalecerá a busca por um Brasil livre de preconceitos e violência? No segundo caso, quantas outras Marielles serão executadas até que o racismo, o machismo, o preconceito social e os demais males sociais sejam extintos?

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